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‘Disco arranhado’: como a música rodou o país por 4 anos e se transformou até virar hit nacional

Balada do baiano Tierry virou bachata da dupla mineira César Menotti & Fabiano, voltou à Bahia no arrocha de Malu e virou hit nacional com funk de Lucas Beat, do interior de SP; veja jornada.

“Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo”. O refrão insistente de “Disco arranhado” foi repetido com caras diferentes, de piano pop a batida crua de funk, e rodou durante quatro anos pelo Brasil até emplacar de vez como hit nacional. Veja a jornada no vídeo acima, na arte abaixo e no texto a seguir.

 — Foto: Fotos: Divulgação / Arte: G1 / Anderson Cattai

— Foto: Fotos: Divulgação / Arte: G1 / Anderson Cattai

1ª volta: balada de Tierry

Tierry — Foto: Reprodução/Instagram

Está no celular de Tierry até hoje um arquivo de áudio gravado no dia 11 de outubro de 2017, chamado “Disco arranhado – Os Menotis”. O baiano ainda não era conhecido como cantor de arrocha, mas já era requisitado como compositor por sertanejos como César Menotti & Fabiano.

Quem ouve o funk de 2021 não imagina que tudo começou com uma balada arrastada e um teclado com efeito de grand piano que lembra o pop inglês dos anos 1960. “Pianão britânico. Melancólico e ao mesmo tempo romântico”, define Tierry.

O jeito retrô da balada para “casais que querem se declarar” combinava com a ideia da composição. “O ‘te amo’ repetido é a materialização poética do disco arranhado”, ele diz.

“Eu queria que as pessoas não só ouvissem, mas que elas conseguissem ver o disco de vinil arranhando na hora certa”, descreve o compositor.

Depois de gravar a versão demo (a demonstração que os compositores fazem para testar e vender a música), o criador enviou o arquivo de “Disco arranhado” para a sua primeira jornada: de Salvador, onde foi composta, para Belo Horizonte onde Cesar Menotti & Fabiano preparavam um disco.

2ª volta: a bachata dos Menotti

César Menotti & Fabiano — Foto: Divulgação / Som Livre

Os irmãos receberam o arquivo e gostaram da ideia. Escolheram “Disco arranhado” como primeira música de trabalho do álbum “Não importa o lugar” (2018). O início lembra o jeito de balada clássica da versão demo, mas logo entram percussões e violões que levam o arranjo para outro lugar.

A bachata, ritmo latino derivado do bolero, era a queridinha da vez das duplas brasileiras. Assim o público ouviu “Disco arranhado” pela primeira vez: no balanço suave de dedilhados e da percussão. Por cima, o vocal sertanejo romântico dos irmãos nascidos no Paraná e em São Paulo e criados em Minas.

O clipe tinha o ator Lucas Veloso, que havia acabado de interpretar o Didico na nova série de “Os Trapalhões”, e sua então namorada, a dançarina do “Faustão” Nathalia Melo, que ele conheceu como professora no quadro “Dança dos Famosos”.

Mesmo com o casal do momento , a música teve, em 2018, um desempenho abaixo da média dos grandes sertanejos. Foram 5 milhões de plays no YouTube, número baixo para os padrões de uma faixa de trabalho da dupla – e uma parte da audiência veio agora, com as novas versões…

3ª volta: nova rainha dos caminhoneiros

Malu, a nova voz romântica do Brasil, lançou "Disco Arranhado" em julho de 2019 — Foto: Reprodução/YouTube/Malu

Malu tinha 17 anos quando gravou “Disco arranhado” no seu primeiro disco promocional, em julho de 2019. A cantora de Vitória da Conquista conhecia a canção na voz de César Menotti e Fabiano, e gravou por uma sugestão do seu tecladista.

Ela acelerou a balada dos sertanejos e transformou em um arrocha, de arranjo próximo ao brega, com um teclado característico. A introdução anuncia a cantora como “a nova voz romântica do Brasil”.

Malu gostou da música por falar de amor, bem no estilo do repertório que estava desenvolvendo. Acabou, sem grandes pretensões, emplacando seu primeiro sucesso.

“Falo que tem música que tem dono, não adianta… Acho que foi isso. O Tierry fez essa música para mim, mas a gente só soube depois”, brinca.

Ela diz que parte considerável do seu público, inicialmente restrito ao Nordeste, é formada por caminhoneiros. Não é à toa que o clipe é uma homenagem a eles — e a elas.

O vídeo colocou a música no contexto de quem vive viajando e sente saudade da família. Malu decidiu representar a classe com uma caminhoneira. “Além de homenagear os caminhoneiros, também queria empoderar as mulheres”, diz.

A cantora também tem carinho pela profissão por conta do pai, que é pastor, mas já foi caminhoneiro. Com a música, ela se projetou no Nordeste – a agenda de shows só crescia até chegar a pandemia.

4ª volta: para chorar no bailão (e no TikTok)

DJ Lucas Beat e Malu no clipe do remix de 'Disco arranhado' — Foto: Divulgação

A versão de Malu começou a circular em vídeos do TikTok e Instagram, até que chegou a um celular em um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida em Presidente Prudente (SP), onde mora Lucas Felipe Narcizo Silva, 21 anos, o DJ Lucas Beat.

Quando tinha 15 anos, Lucas queria ser David Guetta. Ele aprendeu a mexer no programa de produção FL Studio para tocar música eletrônica. As primeiras faixas no estilo EDM de Guetta não deram certo, mas ele percebeu que com aqueles mesmo sons podia fazer funk.

Lucas começou cobrando R$ 20 para criar bases de funk para MCs. Foi ficando conhecido e entrou na produtora Mídia Hits. Ele explodiu de vez quando teve uma sacada: pegar canções melódicas, em especial de “sofrência”, e botar uma batida de funk “mandelão”- a batida crua dos bailes de rua.

Lucas admite que há um abismo entre as batidas secas do funk – ainda mais frenéticas com toques de EDM – e as canções sentimentais. Mas ele descobriu o estranho apelo dessa mistura, que gerava milhões de plays em remixes como de “Na Conta da Loucura”, de Bruno e Marrone.

Quando Lucas viu Malu rodopiando entre caminhões e repetindo “te amo”, pensou só uma coisa: “vai dar bom”, como ele diz. Chamou a cantora para conversar no Instagram, que topou a empreitada e regravou o vocal para o remix.

Lucas pôs a voz de diva teen de Malu em uma batida arrasa-quarteirão. É uma química perseguida por times experientes de compositores e produtores no mundo, que ganhou vida original brasileira de forma espontânea, na DM de um adolescente de Presidente Prudente e uma de Vitória da Conquista.

Da esquerda: Tierry, Fabiano, Malu e Lucas Beat, que fizeram as diferentes versões de 'Disco arranhado' até a música estourar nacionalmente — Foto: Divulgação

Uma observação recorrente nos comentários é que se trata de um funk com uma letra de amor sem “baixaria”. Quem também reforça esse ponto é Malu. “Esse é o ponto positivo que o pessoal mais comenta: É uma música que fala de amor bem alto astral”, diz a cantora.

Lucas Beat descreve o efeito da mistura do amor mandelão nas palavras dos próprios fãs: “A galera comenta muito nos meus vídeos: ‘Tô chorando e dançando. Tô sofrendo, mas rebolando a raba.'”

A versão funk amplificou o sucesso para todo o país, entrou no ranking nacional do Spotify e hoje tem ainda mais plays no YouTube do que o sucesso de arrocha do início de 2020.

“Achei genial a mistura do funk mandelão com uma letra romântica, né? A cara do Brasil. Por isso deu tão certo”, observa hoje Tierry, o pai que viu a música crescer e ganhar vida própria.

Fonte: G1.Globo

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